Sexta-feira, 24 de  novembro de 2017

"Não foi por acaso que chegamos à essa descrença na política", afirma Beto Albuquerque

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Escrito por Daniela de Miranda  |  Categoria: PSB - Entrevista
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Ex-candidato a vice-presidente em 2014 na chapa com Marina Silva, Albuquerque (PSB) pretende concorrer ao Senado em 2018.
Albuquerque diz que meta do PSB, para 2018, é aumentar a quantidade de deputados estaduais e federais eleitos

O ex-candidato a vice-presidente da República na chapa com Marina Silva na eleição de 2014, Beto Albuquerque (PSB), quer retomar o projeto de concorrer ao Senado na eleição de 2018. Para ele, o cenário político estadual depende das alianças construídas pelas executivas nacionais e ainda é muito “confuso”. Segundo Beto, a meta do partido para a eleição do ano que vem é aumentar o número de deputados estaduais e federais.

Apoiador do governo José Ivo Sartori (PMDB), o ex-deputado defende a continuidade dos ajustes à realidade econômica e a necessidade de renegociar a dívida do Estado com a União, mas faz objeções à obrigação do congelamento de salários dos servidores estaduais.

Confirma a íntegra da entrevista concedida na quarta-feira, por telefone.

Pioneiro: O PSB pretende apresentar candidatura própria para o governo do Estado ou deve apoiar a provável candidatura à reeleição de José Ivo Sartori?

Beto Albuquerque: As metas do PSB estão bastantes claras. Queremos aumentar a nossa presença na Assembleia, hoje somos três e queremos eleger cinco. Aumentar a nossa presença na Câmara Federal, hoje somos dois e queremos eleger três, e disputar o Senado. Essas são as nossas metas. Quem tem essas metas não pode pretender apresentar candidatura a governador.

Quais são os planos para a eleição do próximo ano?

2018 está muito confuso ainda porque o cenário nacional está absurdamente indefinido e é muito difícil acertar alianças estaduais sem ter um norte nacional. Em 2014, por exemplo, o acerto e o trabalho de construção em torno do Sartori se deveu à disposição da chapa Sartori em apoiar o Eduardo Campos (ex-governador de Pernambuco e candidato a Presidência da República, morto em acidente aéreo durante a campanha presidencial em 2014). As coisas foram construídas dessa forma e felizmente construímos a vitória (no RS) e o PSB esteve na primeira hora ao lado do governador Sartori quando ele tinha apenas 3% (das intenções de votos). Fomos o primeiro partido a emprestar apoio ao governador e seguimos hoje dentro do governo, portanto, temos responsabilidades. As definições dependem muito das diretrizes nacionais que o partido vai tomar.

Sua disposição é disputar a eleição para o Senado?

Gostaria muito de retomar à minha candidatura (ao Senado) que tive que interromper em 2014. Era candidato na vaga do (ex-senador Pedro) Simon, que muito me honrou e me honra até hoje, na chapa com o Sartori e o (José Paulo) Cairolli, mas com a morte do Eduardo (Campos) tive que cumprir com a tarefa de soldado do partido e acabei virando candidato a vice-presidente na chapa da Marina (Silva). Interrompi um projeto que era do partido e nosso, agora minha disposição é retomar esse projeto ao Senado. Precisamos de senadores que, antes dos seus partidos, lutem pelo Rio Grande. 

E qual o desafio do próximo governador?

É seguir fazendo mudanças. O Rio Grande do Sul é vítima de muitos anos de governos que gastaram mais do que arrecadaram. De governos que se endividaram para pagar suas contas. Não é um governo só que vai resolver essa história de 40 anos. É preciso uma continuidade de processo de ajustes, mudanças, de adequação à realidade.

O senhor assinaria o regime de recuperação fiscal que o governo do Estado quer firmar com a União?

O Rio Grande do Sul tem poucas alternativas diante desta questão. Lembro o ex-governador Tarso Genro (PT) em 2014 dizendo que, se não houvesse a renegociação da dívida, o Rio Grande não pagaria nem o salários dos servidores. Tem que negociar à exaustão e mostrar que aqui se fez muitas mudanças, como aposentadoria complementar e uma série de enxugamentos da máquina pública. O Rio Grande do Sul já apontou para o futuro soluções importantes como, por exemplo, a questão previdenciária. Acho que a gente tem que negociar esses pontos que estressam mais a relação do Rio Grande do Sul com a União, mas não há outro caminho além da renegociação. Tem que negociar o congelamento dos salários dos servidores e a venda dos ativos.

O parcelamento de salários é mesmo inevitável?

Me envergonha ver deputados dizendo que o governador tem dinheiro para pagar e não paga porque não quer. O Rio Grande do Sul está insolvente. O orgulho ou a demagogia impede reconhecer essa realidade. O Rio Grande do Sul precisa de R$ 6 bilhões entre este ano e o ano que vem para encontrar o mínimo de equilíbrio. Falar em cobrar os devedores e a Lei Kandir é um sofisma, porque, se fosse verdade, quem cobra isso hoje poderia ter feito quando foi governo. Não adianta fazer discurso fácil. O próximo governador dependendo do que for possível construir agora em 2017 e 2018, poderá viver as mesmíssimas ou até mais graves dificuldades que o Sartori está vivendo. Se não ajudar a diminuir o tamanho do rombo agora, vai se abraçar com o problema fortemente em 2019.

A Lava-Jato faz bem para o país?

É uma ação necessária. Ninguém está acima de lei, mas é preciso ter cuidado, porque ninguém está abaixo da lei. Quando há fatos e provas, a lei manda que se puna quem é acusado com fatos, delações e provas. Não só com conversas. É uma operação que deveria ser permanente até gerar uma cultura de responsabilidade do empresariado e no setor político brasileiro.

Como superar o descrédito dos políticos e suas siglas?

A política está em uma berlinda porque desejou meter-se na berlinda. Não foi por acaso que chegamos a essa descrença. Não temos, praticamente em todos os partidos, líderes inspiradores da juventude e da sociedade brasileira. Hoje temos velhas lideranças com suas velhas manias e defeitos, são elas que dão entrevistas e patrocinam os piores exemplos. Essas raposas velhas da política, que mesmo acusadas, com dezenas de inquéritos e réus, seguem sendo eleitas pelo povo em seus estados, depreciam a política. Mas não há solução para os problemas da sociedade, nem para a crise que vive o Rio Grande do Sul fora da política. E também não há democracia sem partido. O mais ordinário dos políticos, o mais ladrão não chega por Sedex no Senado ou na Câmara Federal, chega pelo voto, e é isso que devemos nos dar conta.

Entrevista publicada no Jornal Pioneiro em 16/10/2017

Diogo Sallaberry/Agencia RBS

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