Segunda-feira, 23 de  outubro de 2017

Beto Albuquerque: A história do PSB faz com que o partido seja uma fonte de esperança para a grande maioria da nação.

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Escrito por Daniela de Miranda  |  Categoria: PSB - Entrevista
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Tenho convicção que os rumos do PSB serão definidos nas eleições de 2018. Precisamos ter candidatura própria às eleições presidenciais”. Esse foi um dos destaques da entrevista que o presidente do PSB/RS, Beto Albuquerque, concedeu ao Núcleo de Pesquisa do PSB gaúcho que, por meio da Fundação João Mangabeira, está resgatando a história partidária em diferentes regiões do país. 

Vice-presidente nacional da sigla, Beto avalia que “a história do PSB faz com que o partido seja uma fonte de esperança para a grande maioria da nação que hoje está machucada pelos erros da esquerda”. O trabalho do grupo culminará num livro de memórias sobre a trajetória da sigla no Rio Grande do Sul. Confira os principais trechos da entrevista:

 Fundação João Mangabeira: Beto, em que momento começa a sua militância e acontece a decisão de ingressar no Partido Socialista Brasileira?

Beto Albuquerque: Para chegar ao PSB eu preciso resgatar um pouco da minha história. Fui um militante de Igreja, no início da minha juventude, onde me afirmei como uma liderança na Igreja Santa Terezinha, em Passo Fundo. A partir daí conheci pessoas que integravam o movimento da juventude franciscana, cuja filosofia prega a luta contra a opressão, a defesa dos menos favorecidos, do meio ambiente, da justiça. Um pouco dessa filosofia franciscana que abracei ajudou a fundar a minha personalidade. 

A visão política veio entre 1984 e 1985 com o ingresso na faculdade de História da Universidade de Passo fundo (UPF). Já no primeiro semestre me deparei com a esquerda, que naquela época era muito focada em exemplos que não me serviam, com experiências ditatoriais, o comunismo totalitário. Para alguns, por exemplo, a União Soviética era um parâmetro e eu não concordava com isso, pois meu país era bem diferente. Na Faculdade de Direito da UPF que a minha militância política de fato iniciou, quando presidi o Diretório Central de Estudantes, em 1986. Antes disso, entre 1984 e 1985 (durante o curso de História), também presidi o Diretório Acadêmico América Latina Livre. Portanto, foi no movimento estudantil, em 1986, que comecei a pensar na política partidária, porque logo percebi que você pode militar em muitos lugares, mas que dentro de um partido você tem mais oportunidades para influenciar nas decisões. Foi quando em uma aula de direito vi um colega escrevendo no quadro a frase: filie-se ao PSB. Petracco neles. Nessa época, o Fúlvio Petracco, que era engenheiro em Porto Alegre, tinha assumido, digamos, a expressão política do Partido Socialista Brasileiro no Rio Grande do Sul. Foi então que conversei com o Marcos Mussolini, filiado ao partido, que me passou os contatos e ali decidi ingressar no PSB. O partido estava se reorganizando e poderíamos ajudar a construí-lo com uma nova mensagem, nem da esquerda radical, nem da direita. Me filiei em março de 1986 ao PSB, meu único partido.

 

FJM: E quando começa a militância propriamente dita? E quando começa a levantar as bandeiras do partido?

Beto: Começa no momento em que eu fiz os contatos. A justiça eleitoral comandava as direções partidárias naquela época. Não eram os partidos que tinham suas próprias regras. Se não estou enganado, naquele tempo para ter um diretório municipal eram necessárias 600 filiações. Fui atrás disso. Busquei os amigos do movimento estudantil, o pessoal ligado à juventude franciscana, os clientes da oficina do meu pai, onde eu era mecânico. E foi assim que ingressei e ajudei na refundação do Partido. Lembro que fui a “ficha 04” do PSB Nacional.

Em Passo Fundo conhecemos pessoas como o companheiro Carlos De Césaro, Caio Cabeda, entre tantos outros. Começamos a fazer reuniões nas casas, não tínhamos sede, estávamos recém começando as filiações e sequer tínhamos disputado uma eleição. Ficamos muitos anos fazendo isso quando, em 1988, decidi lançar minha candidatura a vereador de Passo fundo. Foi minha primeira disputa eleitoral, com bandeiras em defesa da juventude, do meio ambiente, da liberdade. Nada com o totalitarismo, nada com o autoritarismo. Muita democracia, muito diálogo e muita liberdade de agir. Era com esses princípios que eu fazia greve com os estudantes contra as regras da faculdade, que íamos às ruas. Fui o terceiro mais votado nas urnas, com mais de 1100 votos. Mas, apesar do esforço dos nossos companheiros, não fizemos legenda e não me elegi.

Então em 1990 veio a eleição estadual e a ideia de concorrer a deputado já estava na minha cabeça. Eu tinha um projeto e me elegi deputado estadual, com 11. 807 votos, sendo o terceiro mais votado pela aliança Frente Popular e o primeiro socialista a chegar na Assembleia após a ditadura.

 

FJM: E como foi essa experiência de chegar na Assembleia Legislativa e quais causas abraçastes?

Beto: Antes de me eleger, ainda no movimento estudantil, eu comecei uma luta pela Universidade Estadual, inspirado em Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Eu queria uma universidade pública para os estudantes porque foi muito penoso para mim, como mecânico, frequentar a faculdade. Eu já era pai do Rafael e, em 1989 tive o segundo filho, o Pietro, que Deus o tenha. Então eu tinha que trabalhar muito para sustentar a família e poder estudar. A luta pela Universidade estadual era a luta pela democratização do ensino. Inspirado em São Paulo, onde surgiu a primeiro Universidade Estadual (1934), comecei a lutar pela UERGS. Começamos a visitar outras universidades no estado, como Caxias do Sul, Ijuí, Cruz Alta e Pelotas. Enfim, visitávamos essas universidades comunitárias promovendo o debate sobre a universidade estadual. E nessa época eu assumi o mandato de deputado estadual. Então a defesa da Uergs foi uma das principais bandeiras quando assumi, assim como o meio ambiente e a liberdade. Assim trabalhei por oito anos como deputado estadual, pois me reelegi em 1994 com 34.251 votos. Construí mandatos de muita luta, foram mandatos de mobilização, de defesa dos trabalhadores.

 

FJM: A história do PSB registra sua consolidação justamente nesta fase. Teu mandato teve características de ser um mandato partidário, que investiu na estruturação, na capilarização do partido aqui no Estado. Fala um pouco sobre esse papel do mandato para a consolidação do PSB.

Beto: Sim. O meu mandato foi 100% de construção partidária e de afirmação de mandato. Nossa bancada foi composta para emprestar serviços às causas do mandato mas também do partido. Era outra época e tivemos companheiros “mão de obra”, que foram pensadores e reuniram o partido, como Glênio Argelim, Jauri Oliveira, De Césaro. Tínhamos clareza de que o mandato não era só a construção de um projeto pessoal. Ajudei o PSB a crescer, fundando partido cidade por cidade. Os dois mandatos de deputado estadual consolidaram uma estrutura para o contexto.

 

FJM: Quando começou a ser cogitada a tua candidatura a deputado federal era visível, apesar de alguns acharem contraditório, o teu incentivo para construção de candidaturas concorrentes a tua nas regiões. Ou seja, mesmo sendo candidato, em muitas regiões, ao invés de plantares teu nome lá, construía a candidatura de companheiros. Comente.

Beto: Eu sempre tive a ideia de que, se você quer fazer partido você não pode só pensar no teu projeto pessoal. Eu não podia ter no meu gabinete ou na bancada pessoas que fossem apenas meus cabos eleitorais. Eu tinha que ter pessoas que estivessem pessoalmente, como eu, dispostas a concorrer. E foi isso que fizemos. O partido tem que acumular, formar líderes. E nos meus mandatos de deputado federal eu sempre abriguei muito líderes que hoje são nossos prefeitos ou já foram prefeitos, ou disputam cadeiras na Assembleia e na Câmara. 

Tenho a convicção de que quando a gente atingiu o ápice, com três deputados estaduais, depois três federais, estas conquistas foram frutos desse pensamento e, claro, da liderança de cada um desses companheiros que se elegeram pelo partido.

Eu me lembro de que quando cheguei aos 100.000 votos para deputado federal em 2006, eu estava fora porque o PSB ainda não tinha chegado num quociente eleitoral. Quando eu cheguei a 126.000 aí eu entrei. E o PSB hoje, de certa forma desde daquela época, é um partido que já adquiriu essa maturidade para fazer voos maiores ou não depender de ninguém. Eu vejo muitos partidos políticos hoje, que só pensam no seu líder e, ao chegar à eleição, dependem de uma coligação porque senão o líder não é eleito. Porque não fez o trabalho de base, de formar e incentivar os companheiros.

 

FJM: Quando você chega a Brasília, no final do primeiro mandado de deputado federal, pois se licenciou para ser secretário dos Transportes do governo Olívio, como se dá o contato com a macro política? O PSB paralelamente se consolidando como partido, começando a ter densidade, onde o grupo de Miguel Arraes, por exemplo dá um impulso grande juntamente com a entrada de outras lideranças nacionais. Como tu te vê nesse processo?

Beto: A chegada do Arraes de fato deu uma estatura internacional e nacional para o PSB. Eu era deputado estadual ainda quando chegou o Arraes. Chegou também Eduardo Campos que era deputado estadual em Pernambuco. A minha convivência com o Eduardo começou logo na chegada dele. Nós dois éramos deputados. Ele lá e eu cá. Aprofundamos a nossa convivência, não só política partidária mas também familiarmente falando. 

Em 2002 que já era ano de eleição e eu saio da Secretaria de Transportes, reassumo então o primeiro mandato de deputado federal, no auge do neoliberalismo do Fernando Henrique. Era a pauta nacional e eu entrei lá como deputado fazendo 10 discursos, por dia, contra essa visão neoliberal entreguista que era muito forte na época e que acabou seguindo mais um período. Tanto que no Rio Grande do Sul, posteriormente, vieram as consequências daquele período nacional. Eu sempre fui de me adaptar muito rápido aos desafios. Quando você acredita numa conduta, quando você está vestido de uma convicção, você vai se adaptando. Então cheguei já exercendo, digamos, uma presença muito contundente na Câmara dos deputados em 2002.

Fui para a reeleição depois de ter sido secretário, aumentei a minha votação naquela oportunidade. E em 2006 foi quando eu aumentei consideravelmente a votação, já absolutamente integrado com a política nacional. E a partir de então cheguei à direção nacional do partido, da qual eu comecei a fazer parte. Continuei sendo militante de organização, de filiação de novos quadros do partido, conquistando figuras interessantes naquele período, como foi nosso companheiro que era presidente da FETAG, o Ezídio Pinheiro, que foi deputado por um período. O Bernardo de Souza e a Maria Augusta Feldman foram anteriormente deputados estaduais, eu não sei bem o tempo, mas estou me lembrando de quadros que surgiram. Depois veio o Heitor Schuch, hoje deputado federal e que também passou pela Assembleia. Enfim, a gente foi conquistando quadros no meio do caminho e também fomos renovando a questão política do partido aqui no Estado e nos afirmando cada vez mais como um partido proativo.

 

FJM: Após ouvir esse depoimento do nascimento do PSB, da construção e da evolução partidária nos diversos patamares, como tu vês o futuro do PSB? Que caminho deve seguir o partido nesse contexto atual da vida partidária brasileira? E como tu vê as reformas propostas pelo governo Temer?

Beto: Tenho convicção que os rumos do PSB serão definidos nas eleições de 2018. Precisamos ter candidatura própria às eleições presidenciais. Ser um partido protagonista, com coragem neste momento em que se encerra um ciclo político no Brasil. Precisamos mostra nossas propostas, disputar eleições, passar a nossa mensagem. Se o PSB não fizer isso, a identidade partidária sairá enfraquecida. Ainda mais neste momento em que a esquerda brasileira está dilacerada em sua imagem, pelos erros, pelos crimes e pelos equívocos insistentemente não reconhecidos pelos últimos governos. 

E quem não estiver preparado para mostrar a cara, vai sucumbir, perder sua história. Eu acho que o PSB tem que estar atento a esse episódio. Temos ótimos nomes para disputar. Para seguir adiante na política, precisamos ser a esperança para alguém, para muita gente, para o nosso país. Essa é a nossa primeira tarefa: sermos uma fonte de esperança para a grande maioria da nação, que hoje está machucada pelos erros da esquerda. Temos obrigações e deveres como militantes políticos de um partido com a história do PSB, que sempre lutou contra a ditadura, na defesa dos direitos do povo, de nos distinguirmos e de ajudarmos o povo brasileiro. Eu sempre digo que o que move o povo não são as palavras. As palavras entusiasmam e mobilizam, mas se não houver o exemplo, você não vai a lugar nenhum. Por isso, eu tenho lutado muito como dirigente nacional; instigado as bases, mesmo que a nossa candidatura seja apenas de construção, de demarcação de espaço – mas propugnar ideias e mostrar o que temos vai ser essencial para o futuro do PSB.

Quanto às reformas, acredito que a principal a ser feita no país é a de juros, e não a previdenciária. O maior rombo do Brasil foi o pagamento de R$ 700 bilhões em juros sobre a dívida. Tudo isso foi pago aos bancos. A previdência, mesmo com os seus problemas, não é o grande rombo do país. Nestas mudanças da Previdência, ou você mexe para todo mundo ou você pune os mais pobres. O grande rombo não está na Previdência em si, no INSS, mas no setor público. O  ato de transferir o limite da idade para até 65 anos – tanto para homem quanto para mulher – é mostrar que o governo só enxerga o profissional de alto poder aquisitivo que ingressa tarde no mercado de trabalho. Quem começar a trabalhar com 16 ou 17 anos e seguir até os 65 vai ter 50 anos de contribuição. A proposta do governo sugere 65 anos de idade e 25 de contribuição. Isso significa que ele vai começar a trabalhar aos 40. Isso tudo não dialoga com a realidade. O capitalismo brasileiro sempre encontra uma forma de beneficiar seus interesses punindo os mais pobres. Isso está se repetindo. O Brasil precisa de um novo Getúlio Vargas.

Sobre a reforma política, é preciso dizer que o governo dos movimentos populares de Lula deixou passar a possibilidade de fazer uma grande reforma política. No fim, acabou optando pela velha forma de fazer política, que é o “toma-lá-dá-cá”. Ou seja, o governo de esquerda brasileiro – que todos ajudamos a eleger – jogou fora as expectativas e não aproveitou o momento que tinha para fazer todas as reformas possíveis. Agora é a hora da consequência. Com 39 partidos, eu acredito que a política virou um “balcão de negócios”. O ideal é uma redução no número de siglas; o fim das coligações nas chapas proporcionais – senadores, deputados e vereadores – e a instituição dos mandatos de cinco ou seis anos, sem possibilidade de reeleição. O que vivemos no momento é impróprio para todas as discussões. Ao falar de Reforma Política, sempre surge a questão da lista fechada, que é o esconderijo dos políticos de ficha suja. Filosoficamente a lista pode ser interessante, mas somente se vivêssemos um regime parlamentarista ou em outra circunstância. No contexto atual, qualquer um com uma grande mala preta entra nos partidos e ingressa como o primeiro da lista. 

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