Segunda-feira, 23 de  outubro de 2017

Adriano Sandri: “A formação política tem a função de reconstruir e atualizar a identidade partidária”

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Escrito por Saul Teixeira  |  Categoria: PSB - Entrevista
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Coordenador da Escola de Formação Política Miguel Arraes, da Fundação João Mangabeira (FJM), o professor Adriano Sandri esteve no Rio Grande do Sul no dia 16 de fevereiro para acompanhar o trabalho do Núcleo de Pesquisa do PSB/RS que foi um dos Estados escolhidos pela fundação para resgatar a história da sigla. Natural da Itália, Sandri é formado em filosofia, mestre em Ciência Política e doutor em história das relações internacionais. 

Em entrevista exclusiva ao portal do PSB/RS ele defendeu a formação política permanente para que os partidos resgatem a credibilidade junto à população e possam se reaproximar de suas bases. “Elegemos 3,6 mil vereadores nas eleições de 2016. Daqui a quatro anos poderão ser nossos candidatos a prefeito, por exemplo. Precisamos prepará-los”, exemplificou em encontro com o presidente do PSB/RS e vice-presidente nacional da sigla, Beto Albuquerque.

Atuando no PSB desde 2008, Sandri é também coordenador do Projeto de pesquisas da FJM e responsável pelo Centro de Memória Socialista Nacional, também ligada à fundação do Partido Socialista Brasileiro. Confira a entrevista com o italiano que já foi padre e desafiou a ditadura militar para seguir vivendo no Brasil. 

PSB/RS: Como o senhor avalia o trabalho do Núcleo de pesquisa do PSB/RS que culminará num livro sobre a memória da sigla no Estado?

Adriano Sandri: No Rio Grande do Sul percebo que está sendo feito um trabalho de recuperação documental maravilhosa da memória do Partido Socialista Brasileiro. Foram descobertas fontes escritas e orais que não podemos perder nunca. Realmente o trabalho está valendo muito a pena. Agora chegou o momento de traduzir esse material, de sintetizar, escrevendo essa memória, uma documentação escrita para colocar à disposição de todos essa rica história do PSB no Rio Grande do Sul. Quem tem história sabe contar a história.

PSB/RS: O PSB gaúcho foi um dos quatro Estados selecionados para o projeto. Existe a ideia de expandi-lo para as demais unidades da federação?

Sandri: Exatamente. Nosso desafio é localizar a história. Somos uma federação de Estados e cada Estado tem a sua cultura, identidade e sua história. No futuro queremos, quem sabe, até ampliar o projeto para os partidos nas esferas municipais ou talvez regionais.

PSB/RS: A preocupação do PSB com a formação política é uma característica marcante da sigla. O projeto de pesquisa histórica é um diferencial?

Sandri: Sem dúvida. Pelo que conheço, as outras fundações, ligadas aos partidos políticos, não estão fazendo isso. Nós tomamos esta decisão na Fundação João Mangabeira de incentivar a capacidade de o PSB, em todo o país, escrever a sua própria história, interpretá-la, recuperar documentos e aprender a documentar. Entendemos que essas sejam tarefas de uma fundação educacional e cultural. 

PSB/RS: Existem críticas de que os partidos políticos, em regra, estão afastados da ‘linguagem do povo’ e cada vez mais afastados de suas bases. O que o senhor pensa sobre isso?

Sandri: Se eu pertenço a um partido, preciso ter a possibilidade de discutir com o meu partido em todas as suas esferas: municipal, estadual e federal. A formação política é uma atividade coletiva. A informação muitas vezes é individual, mas a formação não.

PSB/RS: É possível prospectar novos quadros partidários a partir da formação política? Ou ela é destinada somente aos filiados?

Sandri: Na Fundação João Mangabeira consideramos o fato de que ela é financiada pelo fundo partidário, com tributo do povo, então, significa que ela é do povo e não do partido. Nunca fechamos nenhuma atividade como fundação, tanto que as nossas produções são de livre acesso, sem limitações, sem nenhum controle. Fazemos isso de maneira proposital. Além disso, estamos fazendo um esforço organizado para enviar às universidades e outras entidades tudo o que produzimos. Queremos fazer parte desta sociedade aberta, comunicativa e sempre em diálogo.

PSB/RS: Qual o papel da formação política para o resgate da credibilidade na política partidária?

Sandri: A educação política, a formação política tem a função de construir, reconstruir e atualizar a identidade partidária. Sobretudo neste momento de crises de identidades, provocadas pelos próprios partidos. E principalmente neste momento onde a ‘mídia predominante’ quer desclassificar a democracia e a política para voltar a ter o absolutismo cultural.

PSB/RS: Como um italiano acabou virando professor da Escola Miguel Arraes, na capital do Brasil?

Sandri: Eu cheguei ao Brasil aos 27 anos como Padre. Trabalhei cinco anos em Teresina (Piauí) como Padre, mas o Bispo não gostava de mim porque eu ‘não tinha batina’. O bispo me achava muito político. Decidi que não iria largar a política e me mudei para Betim (Minas Gerais) sem avisar ninguém. E lá trabalhei quatro anos como eletricista na Fiat. Organizei duas greves e o ‘pessoal’ não gostou. Me expulsaram da Fiat e tentaram me expulsar também do Brasil, na época era o presidente Figueiredo (ex-presidente João Batista), acredita? Amo o Brasil e fiquei. 

 

Foto: Saul Teixeira - divulgação PSB/RS

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