Sexta-feira, 20 de  outubro de 2017

Meta de Luciano é ampliar aeroporto de Passo Fundo

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Escrito por Jornal do Comércio  |  Categoria: PSB - Entrevista
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ENTREVISTA ESPECIAL publicada no Jornal do Comércio 12/12/2016

Reeleito com alta aprovação popular - 76% dos votos válidos - o prefeito de Passo Fundo, Luciano Azevedo (PSB), elegeu como prioridade para o próximo mandato defender a ampliação do aeroporto da cidade. O projeto, conforme adiantou a Luciano o ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha (PMDB), é o mais adiantado entre os terminais regionais do País.

"Passo Fundo vai dar mais um salto. No médio prazo, seremos uma cidade com a mesma importância de Caxias do Sul", projeta. Como consequência, avalia, a cidade e a região entram na rota de negócios do Estado e se desenvolvem em diferentes áreas.

A diversificação da matriz econômica do município, que ampliou a base produtiva para além da prestação de serviço, é apontada por Luciano como motivo do crescimento mesmo em época de crise. "Quem está no comando de uma máquina pública tem que eleger prioridades", defende, justificando a medida adotada ainda no primeiro ano da atual gestão, de cortar o repasse de recursos públicos para o Carnaval na cidade. "A nossa prioridade não era aquela, era manter o que a população mais precisa sendo atendido", completa.

Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Luciano faz um balanço de seu primeiro mandato na prefeitura de Passo Fundo e explica como escolhe a destinação dos recursos financeiros do município.

Jornal do Comércio - Passo Fundo é referência em muitas áreas, entre elas o ensino. Como se administra uma cidade que em período letivo está cheia e durante as férias não?

Luciano Azevedo - Passo Fundo é uma cidade que recebe recursos para 200 mil habitantes, mas atende 1 milhão de habitantes. Somos uma capital regional, somos a principal cidade do Norte do Estado, a melhor saúde entre as cidades médias do Brasil, a melhor cidade para fazer negócios no interior do Rio Grande do Sul, e é a cidade com maior número de voos para o Centro do País no interior do Estado. Ou seja, tem muito atrativo, e as pessoas procuram por isso: comércio forte, universidade. É uma cidade que se industrializou, diversificou sua planta econômica. Temos que trabalhar como capital regional, mas sempre com o foco primeiro de atender quem é de Passo Fundo. Essa é a tarefa do prefeito.

JC - O aeroporto facilita o acesso à cidade para quem quer fazer negócio? Qual a situação dele hoje?

Luciano - Quando assumi a prefeitura, havia um voo diário para São Paulo. Trabalhamos muito para mostrar a necessidade de ampliação. Hoje temos o voo para São Paulo mantido, dois voos diários para Campinas, voo para Porto Alegre, para Florianópolis, tem um leque. O aeroporto hoje deixou de ser o lugar das pessoas que vão fazer turismo. No nosso caso, o aeroporto é um local de distribuição daquelas pessoas que acessam a região e que vão a Santo Ângelo, Erechim, Carazinho, que ficam em Passo Fundo, para trabalhar nas mais diversas atividades. Está provado que o mercado em Passo Fundo, a partir do aeroporto, tem alto potencial para as empresas aéreas. Estive com o ministro Padilha alguns dias atrás, para discutir a ampliação do terminal do aeroporto. E a informação que temos é que, de todos os aeroportos regionais em que o governo federal vai investir, Passo Fundo é o que está mais adiantado, é o que já tem o projeto pronto. Isso sinaliza para aquilo que o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) falou há alguns anos, que Passo Fundo vai dar mais um salto. No médio prazo, seremos uma cidade com a mesma importância de Caxias do Sul. Esse é o nosso objetivo.

JC - Tem buscado ampliar a matriz produtiva da cidade?

Luciano - Passo Fundo diversificou a sua matriz econômica. A cidade viveu, por muitos anos, dos serviços. Hoje eles continuam sendo importantes, mas precisávamos nos industrializar. Isso foi feito na última década, Passo Fundo tem uma grande planta de biodiesel, tem indústria de laticínios, inaugurou (na quinta-feira) uma grande central de distribuição de uma das maiores empresas farmacêuticas do Estado (Farmácias São João), onde vão trabalhar 2 mil pessoas só na distribuidora. Tem um leque de oportunidades em Passo Fundo que atrai muita gente, isso faz com que a cidade continue crescendo, mesmo com as dificuldades da crise econômica.

JC - E como se faz para crescer mesmo com a crise?

Luciano - Com essa pluralidade de alternativas econômicas que a cidade tem. Muitas cidades no Interior têm esse problema: no momento em que dependem de apenas um setor da economia, têm muito mais chances de fracassar. Passo Fundo abriu a sua economia, é uma cidade muito moderna, que tem tudo e oferece alternativas para todos os tipos de negócio, desde o pequeno até o muito grande. Desde aqueles locais que querem empreender, até muitos empresários que vêm de fora. O que está acontecendo hoje, é que o Brasil vive uma crise que acaba prejudicando sensivelmente o lugar onde, na minha avaliação, estão as soluções, que são os municípios. Os municípios brasileiros estão garroteados pela falta de recursos nas suas estruturas administrativas. Todo mundo sabe, todo mundo diz, mas ninguém resolve. A pirâmide está completamente errada, com mais dinheiro no governo federal e menos dinheiro onde as pessoas moram, e no meio ainda tem os estados consumindo uma fortuna para manter máquinas que não funcionam. Está tudo errado. Como é que conseguimos superar isso? Com a economia local, que felizmente está funcionando.

JC - Mesmo assim Passo Fundo teve cortes em dois eventos: a Jornada Nacional de Literatura e o Carnaval...

Luciano - São duas situações bem diferentes. A Jornada é um patrimônio de Passo Fundo, do Rio Grande do Sul e do Brasil. Mas ela sofreu durante muito tempo o preconceito de estar em uma cidade do Interior. Em determinado momento, competimos com a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). Qual é a diferença? Paraty está no Rio de Janeiro, nós em Passo Fundo. No ano passado, devido à crise do Brasil, ela não foi realizada. Em 2017 ela volta, isso já está definido, chegou-se a um consenso de que a Jornada poderia ser potencializada em um novo modelo que está sendo discutido. O Carnaval tem uma questão de visão. Quando assumi a prefeitura, existia um modelo que dava recurso público para as escolas de samba, como acontece em muitas cidades do Brasil. Anunciei, logo no início do governo, que não iria mais repassar esse dinheiro e colocamos o recurso em ar-condicionado em 408 salas de aula das escolas municipais. Nos anos seguintes, fizemos um Carnaval de qualidade. No último ano, fizemos uma opção porque entendemos que a crise do Brasil iria acabar afetando também o Carnaval, então ele não foi realizado.

JC - Como foi a conversa com as escolas de samba?

Luciano - As escolas de samba querem realizar o Carnaval, mas quem está no comando de uma máquina pública tem que eleger prioridades, a nossa prioridade não era aquela, a nossa prioridade era manter o que a população mais precisa sendo atendido e, principalmente, não voltando a dar dinheiro para as escolas de samba, o que consideramos errado. Quando a situação financeira melhorar, quando a prefeitura puder ajudar os carnavalescos a buscar recursos para o Carnaval... mas isso depende de as empresas apoiarem, é um modelo com apoio da iniciativa privada.

JC - Alguma outra atividade cultural da cidade acabou sofrendo algum impacto em função da crise?

Luciano - O impacto é nas contas públicas, porque acabamos recebendo menos do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Temos dois ingressos importantes de receita. Do governo federal, o FPM caiu dramaticamente nesse último ano, especialmente depois dos acontecimentos que levaram à troca do governo federal. No Estado, o ICMS, por forças dessas novas alíquotas aprovadas pela Assembleia Legislativa, vem se mantendo na mesma medida. Claro que isso, aliado a dificuldade econômica do País, traz dificuldade para todos os municípios, mas temos levado, os salários estão em dia, os investimentos estão acontecendo.

JC - Sobre o ar-condicionado em salas de aula, teve impacto nas contas?

Luciano - Cortamos aquilo que não é necessário, por exemplo, em aluguéis, reduzimos a despesa com terceirizados, com horas extra. O foco é sempre entregar um serviço para a população, governar para fora do governo. Claro que para aumentar os investimentos, criar programas, realizar obras, isso envolve recursos, que estão sendo encontrados com a redução de despesas que a prefeitura ordinariamente tem. Também foi criada uma Secretaria de Captação de Recursos que se mostrou muito eficiente.

JC - Como ela atua?

Luciano - Basicamente em sintonia com a Secretaria de Planejamento, fazendo muitos projetos, apresentando ao governo federal. Captamos mais de R$ 70 milhões, o que, em um orçamento como o nosso, que é de R$ 600 milhões por ano, tem uma importância fundamental. Em uma só captação conquistamos R$ 52 milhões, utilizados para pavimentação, drenagem, saneamento. A Secretaria de Captação foi essencial para isso. É um grupo pequeno, técnico, formado exclusivamente com esse objetivo: fazer projetos e captar recursos para a prefeitura.

JC - Quais eram suas bandeiras na primeira gestão? Qual foi o foco desses quatro anos de mandato?

Luciano - Passo Fundo, como praticamente todas as cidades, tinha uma tradição do acordo político, cargos nos governos ocupados pelos partidos. Quando cheguei à prefeitura por um partido pequeno (eleito em 2012, pelo PPS), tive a oportunidade de fazer diferente. Escalamos somente técnicos para as secretarias. Fomos buscar nas universidades, na sociedade civil, pessoas que eram especialistas nas suas funções. Isso fez com que o secretário de Educação, por exemplo, fosse um diretor da faculdade de Educação da Universidade de Passo Fundo, o de Saúde é um professor de Medicina Comunitária da cidade, a de Planejamento é uma urbanista, de Segurança é um coronel da Brigada. E assim fizemos um governo técnico, ao qual é dada a responsabilidade de cumprir aquilo que o prefeito anunciou na campanha eleitoral. Existe uma avaliação permanente a cada três meses de todos os serviços públicos, e isso gera uma nota para aquela área e para o secretário municipal. Essa avaliação de todos é apresentada em uma reunião trimestral, e o secretário que está mal, ou melhora, ou cai. Os secretários se mantiveram por quase todo o governo, trocamos pouco, porque a solução técnica foi dada. Foram resolvidos problemas antigos da cidade, e as metas estabelecidas foram cumpridas.

JC - Quando fala em problemas antigos da cidade, quais seriam?

Luciano - Tínhamos um lugar que era um banhado, há mais de 20 anos, chamado de banhado da Vergueiro. Ele era objeto de contendas ambientais, Ministério Público, prefeitura, Judiciário, ambientalistas. Resolvemos o problema entregando aos técnicos e eles nos devolveram um parque ambiental. Além disso, criamos 27 programas de governo. Um deles se chama "Meu bebê, meu tesouro" e derrubou a mortalidade infantil, que já chegou a ser de 22 óbitos para mil nascidos, para oito (óbitos), o que é uma taxa europeia. Todos esses programas tiveram prazos, metas, solução técnica e muita cobrança para que fossem entregues para a comunidade. Não tem mágica, tem muito trabalho, organização e seriedade.

JC - Buscou alguma referência quando entrou na vida pública?

Luciano - Quando conheci o Bernardo de Souza (PPS, falecido em 2010), que foi prefeito de Pelotas, fiquei muito impressionado. Quando fui eleito prefeito, tivemos a humildade de percorrer muitas cidades do Rio Grande do Sul e do Brasil para olhar onde tínhamos exemplos positivos. Busquei muitos prefeitos bem-sucedidos para falarem com os secretários, com o grupo. Coincidentemente um deles foi o governador (José Ivo) Sartori (PMDB), quando recém saía da prefeitura (Caxias do Sul). O Pedro Bertolucci (PP), de Gramado, Cezar Schirmer (PMDB, Santa Maria), Jairo Jorge (PT, Canoas), não importa o partido, onde havia um bom exemplo, uma boa iniciativa, algo que poderia ser aproveitado, aperfeiçoado ou adaptado, fomos lá conhecer. Tudo o que serve para Passo Fundo é aproveitado, independentemente de onde vem.

 

Perfil

Advogado e jornalista por formação, Luciano Palma de Azevedo, 47 anos, nasceu em Passo Fundo. Iniciou a vida na política em 1992, quando foi eleito vereador pelo PDS. Reelegeu-se na Câmara pelo PPB (sucessor do PDS, atual PP) em 1996 e 2000. Em 2004, concorreu a prefeito pela primeira vez, já pelo PPS, ficando em segundo lugar, com diferença de 2% dos votos para o prefeito eleito. Elegeu-se deputado estadual pelo mesmo partido em 2006 e 2010. Em 2008, concorreu mais uma vez a prefeito de Passo Fundo, ficando novamente em 2º lugar. Conquistou o cargo na eleição de 2012 pelo PPS e neste ano, filiado ao PSB, foi reeleito com 85.505 votos, um percentual de 76% dos votos válidos. Como prefeito de Passo Fundo, recebeu algumas distinções, como gestor público pelo Sindifisco-RS, prêmio de boas práticas e transparência na internet do Tribunal de Contas, prêmio de Responsabilidade Social da Assembleia Legislativa, selo de Prefeito Amigo da Criança da Fundação Abrinq, entre outros.

JONATHAN HECKLER/FOTOS: JONATHAN HECKLER/JC

Bruna Suptitz

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